Artigo: A interdição do futuro

Publicado originalmente no Valor Econômico em:

https://www.valor.com.br/opiniao/5939771/interdicao-do-futuro

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José Graziano da Silva*

As forças dissolventes e polarizadoras que rangem o assoalho do nosso tempo não avançam apenas no Brasil. Compreender a lógica global que as impulsiona é crucial para resistir a simplificações redentoras, que estreitam ainda mais os corredores do labirinto que nos enreda.

O mundo vive o esgotamento de um padrão de desenvolvimento que, a partir de 2008, tornou os pobres ainda mais pobres. Ao desemprego juntou-se a supremacia das ocupações precárias –adicionalmente impulsionadas pela espiral da automação 4.0.

Manifestações mórbidas dessa interdição do futuro se multiplicam em irrupções de xenofobia, escaladas protecionistas, ressurgências racistas, intolerância e demais correlatos de um tempo em que o medo, a incerteza e a prostração engrossam as correntezas subterrâneas de um acoelhamento civilizacional no qual chocam os ovos do obscurantismo e da irracionalidade.

Antes que o novo ciclo de alta dos juros internacionais torne ainda mais poluído o ar que respiramos, é preciso resgatar a confiança da sociedade no poder da democracia e da negociação para reinventar um futuro convergente e sustentável que a simples delegação de plenos poderes ao mercado não foi capaz de entregar.

É nessa encruzilhada que avulta a extraordinária oportunidade contida na convocação lançada pelo novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado este mês na Coreia do Sul, na reunião de balanço do Acordo de Paris, de 2015.

O que se afirma ali a partir da análise de milhares de informações científicas de todo o mundo é que a humanidade já vive as consequências de um aquecimento global de 1°C.

Catástrofes climáticas já causaram prejuízos diretos de US$ 2,9 trilhões tendo acarretado a morte de 1,3 milhão de pessoas em todo o mundo desde 1998. O dado é da Agência da ONU para Redução de Riscos de Catástrofes (UNIDSR), que contabilizou perdas acumuladas da ordem de R$ 58 bilhões nesse período para o Brasil.

O saldo ascendente desaconselha esticar a corda até o limite superior a 2 °C estabelecido na reunião de 2015, na capital francesa, adverte o novo relatório do IPCC, que levou as Nações Unidas a exortar governantes de todo o mundo a restringir o aquecimento global a 1,5 °C.   É mais que um apelo: o que se convoca é um mutirão sem precedente de reordenação das formas de viver e de produzir em nosso tempo, antes que a anomia se cristalize de vez.

O saldo negativo que já exibimos por incapacidade da grande maioria dos países de adaptar e mitigar os efeitos das mudanças climáticas em curso não admite tergiversações. Muito menos o retrocesso sinalizado pela agenda que lidera a disputa presidencial brasileira, por exemplo.

Inclui-se aí a ameaça de sair do Acordo de Paris.

O reverso disso é a crônica do desastre em marcha num planeta perplexo com o risco de uma das maiores potencias verdes da terra aderir à alavanca da devastação. Foi o que disseram, por exemplo, os mandatários da Espanha e do Chile, Pedro Sánchez e Sebastián Piñera, no último dia 10, em Madrid. Juntos, manifestaram ‘enorme preocupação’ com a possibilidade de o Brasil deixar o pacto mundial em um momento no qual, acentuaram, é preciso tomar decisões muito urgentes e muito drásticas em matéria de meio ambiente.

O que lideranças de extração ideológica tão distinta quanto Sánches e Piñera estão dizendo colide, igualmente, com a temerária contrapartida de ‘racionalidade de gestão` associada à hipótese de abandonar o Acordo de Paris.

O complemento doméstico do desatino internacional é a ameaça de fundir o Ministério do Meio Ambiente, criado no Brasil em 1992, à pasta da Agricultura. A tendência internacional avança no sentido oposto. Em diferentes latitudes, políticas ambientais não se subordinam mais a nenhum setor, ao contrário. Mesmo na América Latina, 17 já possuem um ministério dedicado ao tema. O mesmo ocorre em outras regiões do planeta: os ministérios de agricultura tradicional estão perdendo o controle das temáticas do meio ambiente e do manejo das florestas naturais.

A ênfase global é capacitar a sociedade e a economia para responderem a fatos cientificamente mensurados, abundantemente documentados. Secas prolongadas que semeiam fome e incêndios incontroláveis, desde a Europa à África; furacões de intensidade recorde em um século –caso do Michael, por exemplo, que despencou agora na Flórida; a elevação do nível dos oceanos e o degelo no Ártico, entre outros sinais de um ‘novo normal’ desestruturador.

Mais dias muito quentes (acima de 32 C) estão no monitor dos laboratórios de previsão do clima, o que afetará as condições de saúde das populações, o abastecimento de água –o que recomenda preservar e intensificar o programa de cisternas no Nordeste, por exemplo, atingindo por cortes orçamentários recentes—e os rendimentos das colheitas e da produção de laticínios. A demanda e o custo da eletricidade vão disparar.

Quando uma combinação de ameaças políticas e ambientais põe em risco valores e conquistas inegociáveis da sociedade é a hora de responder à catarse do medo com pactos primordiais. Aqueles em que as divergências menores se subordinam aos consensos essenciais para que possa existir amanhã. Não podemos deixar que o medo de hoje vença a esperança de um futuro melhor para todos.

*José Graziano da Silva é ex-ministro da Segurança Alimentar e Combate à Fome do Brasil