Artigo: O valor da democracia

por José Graziano da Silva*

Recentemente, li um artigo que me chamou muito a atenção: “A guerra civil dos brancos ricos” (“The Rich White Civil War“, edição internacional do New York Times). O texto traz um estudo sobre a evolução da polarização da sociedade norte-americana, mostrando a dicotomia quase absoluta existente hoje entre os 8% dos mais ricos, brancos com ideologia à esquerda e os 6% dos brancos, mais ricos, e com ideologia à direita.

Essa distinção se materializa essencialmente nos valores morais, sociais e também econômicos, como o casamento gay, o aborto, o assédio sexual, o porte de armas, desregulação total dos mercados, a ilusão self-made man, entre outros. O que um lado apóia, o outro condena.

Chamou também a atenção no artigo o fato de que a polarização nos grupos intermediários é muito reduzida ou até mesmo inexistente:  “Quando você sai desse grupo de elite, encontrará um pensamento muito mais independente e flexível. Os Estados Unidos não são uma nação dividida exatamente ao meio, 50%-50%. Isso só aparenta acontecer quando os eleitores desencantados são forçados a escolher entre duas correntes extremas de pensamento”, conclui o autor David Brooks baseado no relatório “As tribos escondidas, um estudo do panorama polarizado dos Estados Unidos” (do inglês “Hidden Tribes, a study of America’s polarized landscape”).

Ou seja, a polarização total se comprova entre duas elites: uma à esquerda e outra à direita do espectro politico. E aquilo que mais interessa à vida da maior parte da população está longe dessa equação bipolar. As conquistas econômicas e sociais obtidas no dia-a-dia, como o acesso à educação, à saúde, à moradia, a empregos de qualidade, ao saneamento básico, à energia, ao sistema bancário, entre outros direitos básicos, permanecem à margem dessa disputa ideológica entre a esquerda e a direita norte-americana.

Noto também que nos últimos dias esse perigoso radicalismo da polarização, sobretudo no campo político, tem sido condenado por líderes internacionais de diferentes estirpes. Ontem, ao se  o envio de carta-bomba a líderes do Partido Democrata, até mesmo o presidente Donald Trump tratou de “enviar uma mensagem muito clara, forte e inequívoca de que atos ou ameaças de violência política de qualquer tipo não têm lugar” numa disputa democrática.

Também nessa semana, o Papa Francisco fez alerta semelhante a jovens durante a Assembleia Geral do Sínodo de Bispos: “Semear ódio, violência e divisões é um caminho de destruição, suicídio. Olhem para os locais dos conflitos: falta de humanidade, agressão, ódio entre culturas e tribos”.

Essas manifestações apenas corroboram que quando o choque de ideias e disputas políticas passa a ter  episódios de agressão física ou de práticas terroristas, como se observou no envio das cartas-bomba nos Estados Unidos, a democracia está em risco. A divergência política por meio dos partidos e a convivência pacífica da diversidade de opiniões estão entre os alicerces dos princípios democráticos. Não podemos transformar adversários em inimigos – trata-se de uma premissa básica da convivência social democrática.

Toda vez que tornamos oponentes em rivais pessoais, principalmente no campo das ideias, abre-se espaço para o crescimento de doutrinas de exceção, como aconteceu na Segunda Guerra Mundial com o nazismo e o fascismo.

Muitas manifestações semelhantes estiveram presentes na América Latina durante as décadas de chumbo de 1960 e 70, como se verificou nas sanguinárias ditaduras militares de Argentina, Brasil e Chile. Eram momentos em adversários políticos eram assassinados, torturados e banidos. Essas e quaisquer outras formas de agressão são limites que não podem ser ultrapassados. Garantir a democracia é fundamental para se obter progresso em qualquer tema e sob qualquer instância, hoje, no mundo. Não pode haver desenvolvimento econômico e social sem democracia.

Nessa perspectiva, registro também as manifestações de diversas vozes mundiais sobre o que tem acontecido no Brasil ao expressarem claramente suas preocupações com o risco de um retrocesso democrático. Se há algo em que o país obteve avanços significativos nas últimas décadas foram as conquistas sociais básicas da cidadania que a nossa “jovem democracia” permitiu – ainda que, muitas vezes, ela não tenha trazido todos os frutos que dela esperávamos. De toda maneira, mantê-la é a única esperança para se vislumbrar um futuro melhor para o país.

A população – e não as elites ideologicamente polarizadas  – deve esperar de seu novo presidente uma referência política que garanta a manutenção e a ampliação dessas conquistas fundamentais. E a única maneira de fazer essa avaliação é estudar o passado dos candidatos e ver qual deles possui histórico comprovado de engajamento pela obtenção e pela implementação desses avanços sociais.

O período eleitoral que vivemos hoje me recorda muito as eleições de 1989, quando tive o direito de votar pela primeira vez para presidente do meu país. Na época, a elite à direita apoiou um candidato que, assim como em 2018, promete ser a panaceia do sistema político brasileiro. Deu no que deu.

Em que pese todos os erros cometidos pela centro-esquerda brasileira, não me resta dúvidas de que ela é a única resposta positiva para  garantir a manutenção da democracia e das conquistas sociais básicas da cidadania. No balanço que faço dos ultimos governos progressistas, acertamos mais do que erramos. No entanto, como em 1989, mais uma vez, estamos diante de uma disputa entre a esperança e o medo.

Que nas eleições de amanhã mantenhamos a esperança pela manutenção da democracia,  pela consolidação das conquistas sociais e por um Brasil mais justo.

*José Graziano da Silva é ex-ministro da Segurança Alimentar e Combate à Fome do Brasil