FAO e China criam nova história de cooperação sul-sul na agricultura

Por José Graziano da Silva, Diretor-Geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO)

Ao nos aproximarmos do fim do ano, temos notado que os valores centrais das Nações Unidas estão sob risco. A atual ameaça à humanidade e à paz tem assumido diferentes formas: intolerância religiosa, preconceito contra os imigrantes e negligência pelos pobres.

Enquanto a economia mundial ainda se recupera da crise financeira que surgiu em 2008, nota-se que o desemprego entre os jovens ainda cresce assustadoramente, uma fonte de incerteza e inquietação. Além disso, as mudanças climáticas e os conflitos prolongados têm contribuído para o aumento da fome e outras formas de desnutrição em todo o planeta: em 2017, 821 milhões de pessoas ainda se encontravam subalimentadas em 2017, segundo os últimos dados da FAO.

Neste contexto, nos reunimos na semana passada com diversos ministros em Chengsha, para discutir como podemos reforçar a cooperação sul-sul na agricultura e no desenvolvimento rural. Como uma das precursoras no apoio à cooperação sul-sul, a China tem oferecido, ano após ano, assistência técnica a outros países em desenvolvimento de maneira cada vez mais intensa. A FAO tem contado com a parceria chinesa em seu Programa de Cooperação Sul-Sul e Triangular da FAO, com aporte que supera os 80 milhões de dólares.

Em números concretos, cerca de um milhão de agricultores tem se beneficiado das iniciativas de Cooperação Trilateral FAO-China e mais de mil especialistas chineses têm trabalhado com parceiros locais em 28 países. A assistência técnica abrange diversas áreas, como a produção agrícola, irrigação, aquicultura, pecuária, agroflorestamento, mecanização agrícola e agronegócio.

A China tem demonstrado dispor de experiências e práticas eficientes para combater a pobreza e a fome, tendo sido o primeiro país em desenvolvimento a atingir os Objetivos do Milênio das Nações Unidas antes de 2015. Recentemente, o governo chinês adotou uma nova estratégia para revitalização rural, a fim de aliviar os problemas de segurança alimentar e de redução da pobreza. Essas conquistas podem ser atribuídas ao sólido compromisso político de seu governo, com mobilização eficiente de recursos e contínua inovação.

A colaboração FAO-China nessa área tornou-se ferramenta estratégica da relação entre o país e a organização. Tenho a certeza de que esse exemplo poderá indicar o caminho para a adoção de agenda permanente da cooperação sul-sul no sistema das Nações Unidas, como esperamos acontecer durante a Conferência que marcará o 40º aniversário do Plano de Ação de Buenos Aires (BAPA+40), em março do ano que vem, na capital argentina.

Não resta dúvidas de que, por seus princípios inspiradores e seus resultados concretos, a cooperação entre países em desenvolvimento e agências especializadas da ONU é uma maneira de se obter avanços, nesses tempos desafiadores, em direção ao cumprimento da Agenda 2030.