Nota sobre o Prêmio Nobel da Paz concedido ao Programa Mundial de Alimentos

Queridos amigos e amigas,

Quero agradecer a manifestação de carinho de muitos de vocês por ocasião do Prêmio Nobel da Paz concedido ao Programa Mundial de Alimentos (PMA), na sexta-feira (11/10). 

Gostaria de pontuar algumas questões relacionadas ao  trabalho realizado pela FAO na área da paz e segurança alimentar durante meus dois mandatos como Diretor-Geral.

Embora tenha sido criado como um programa conjunto entre a Secretaria-Geral da ONU e a FAO  o PMA tem hoje completa autonomia financeira e operacional graças às generosas doações que recebem dos doadores (incluindo o setor privado) para combater a fome em países em emergências seja por conflitos internos, seja por catastrofes naturais.

Ao longo dos últimos anos, a FAO e o PMA estreitaram suas relações de maneira a complementar suas ações em suas sedes, em Roma, e no terreno. 

Uma dessas ações materializou-se na produção de relatórios conjuntos, em que também participava a UNICEF e o Escritório das Nações Unidas para Ações Humanitárias (OCHA), sobre o levantamento detalhado da situação da segurança alimentar nos países.

Em março de 2016, Angola, então membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU , convidou-me, como Diretor-Geral da FAO a apresentar um desses relatórios que até então era de uso interno das agências do sistema ONU. Na oportunidade, defendi a tese que a a fome é uma variável que pode ser utilizada como próxi dos conflitos; e que a paz não pode ser atingida ou consolidada se não houver segurança alimentar – e vice versa. Até então, o CSNU não havia considerado a fome como parte de suas análises .Ficou acertado, então, de que a FAO e o PMA entregariam anualmente ao Conselho de Segurança um documento específico sobre a situação da fome nos países avaliados regularmente por aquele órgão, com base naquele relatório de monitoramento em tempo real da segurança alimentar já citado.

Ainda em 2016, em maio, criamos a Aliança pela Segurança Alimentar e Paz entre a FAO e os laureados pelo Nobel para apoiar iniciativas relacionadas à virtuosa e mútua relação entre a segurança alimentar e a construção da paz.

Diante da reação positiva a apresentação no CSNU, a FAO e o PMA, em conjunto com outras agências parceiras, foram solicitadas, em 2017, a produzir um relatório anual sobre crises alimentares agudas, com financiamento da União Europeia. No mesmo ano, FAO e OMS apresentaram em sessão formal do CSNU um relatório conjunto sobre a situação humanitária do Iêmen, até então a pior entre as crises humanitárias de todo o planeta. Consolidou-se, assim, o  nexo “paz-desenvolvimento-emergência humanitária”, e que foi evidenciado durante visitas conjuntas dos chefes de FAO e PMA a países em conflito com níveis elevados de insegurança alimentar, como Sudão do Sul (2017) e Níger (2018).

Em março de 2018, entreguei ao Secretário-Geral da ONU, Antonio Guterres, um documento sobre a “Política Corporativa da FAO para a Paz Sustentável” , mesmo mês em que  lançamos a segunda edição do relatório de crises alimentares agudas. Em maio desse mesmo ano, o Conselho de Segurança aprovava sua primeira resolução (2417) que atrelava a fome extrema como causadora de conflitos, ponto ressaltado durante a fundamentação do Prêmio Nobel da Paz concedido agora ao PMA .

Vale dizer que, no segundo semestre de 2018, membros do Comitê Executivo do Nobel da Paz realizaram visita às sedes da FAO e do PMA, em Roma, em busca de informações mais detalhadas sobre o trabalho de ambas organizações. Na ocasião, fui convidado a participar de painel paralelo à cerimônia de entrega do Nobel da Paz, em dezembro de 2018, em Oslo, sobre mudanças climáticas, com o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, como orador principal.  Na ocasião, tive a honra de ser convidado à cerimônia que agraciou a ativista Nadia Murad e o médico Denis Mukwege e participei de discussões informais sobre uma eventual nomeação conjunta de FAO e PMA ao Prêmio Nobel da Paz, tendo em vista o trabalho complementar existente entre as duas organizações. 

O prêmio concedido na última sexta-feira reconhece a expertise do Programa Mundial de Alimentos em promover a segurança alimentar em áreas afetadas por conflitos, tendo a capacidade de estar presente rapidamente quando da eclosão de crises. 

Em tempos em que o sistema ONU está parcialmente paralisado pela crise do multilateralismo desde antes do COVID-19, o PMA, por meio das contribuições voluntárias recebidas, tem conseguido mostrar sua agilidade operacional e logística para chegar nos pontos de conflito e atuar de maneira eficaz.

Mais uma vez, transmito meus parabéns ao meu amigo, o Diretor-Executivo David Beasley, por esse prêmio merecido, e a toda a equipe do PMA ao redor do mundo.