O Sahel e o Semiárido do Nordeste: as cisternas contra a seca e pelo desenvolvimento

Hoje, tive o prazer de inaugurar o escritório subregional da FAO em Dacar (Senegal), que coordenará as mais diversas atividades da Organização em prol do desenvolvimento do Sahel. Entre esses projetos, lancei oficialmente, e com especial orgulho, o “1 Milhão de Cisternas para o Sahel”, iniciativa com a inspiração da experiência brasileira que levou água potável a milhares de pessoas no Semiárido Nordestino, a baixo custo e com a expertise da Articulação do Semiárido (ASA).

O Sahel e o Nordeste brasileiro são áreas praticamente idênticas na geografia. Quando começamos a implementar o projeto das cisternas no Brasil, no início do primeiro governo Lula, chegamos a conclusão de que não era possível erradicar a fome sem garantir acesso amplo à água potável.

Naquela época, uma cena era muito comum: mulheres passavam longas horas carregando baldes pesados de água na cabeça; uma agua que era coletada em represas localizadas longe de suas casas. Na maioria das vezes, essa água não era segura para ingestão, e também não era suficiente para suprir outras necessidades das famílias durante os longos períodos de seca.

Para solucionar o problema, organizações locais, como a ASA, elaboraram o conceito de capturar a água da chuva e armazená-la em cisternas que permitiam que a água então coletada estivesse disponível para as famílias nos períodos de estiagem, que duravam até 6 meses por ano.

Assim, nasceu o projeto de construir 1 milhão de cisternas na região nordeste do Brasil. Era uma solução sustentável e relativamente barata – uma cisterna custa menos de US$ 2 mil, ou pouco menos de 8 mil reais. Concebida pela população local, a ideia das cisternas foi impulsionada pelo conceito de “sertanejo” – que significa “conviver com o semi-árido” – em vez de tentar combatê-lo, uma vez que a seca é uma situação corriqueira ali.

Por meio do Programa Fome Zero, o governo brasileiro abraçou o projeto logo no início de sua implementação, em 2003, e o financiou trabalhando em parceria com as organizações locais e fortalecendo as potencialidades da população rural. Em 2014, a meta do primeiro milhão de cisternas foi atingida.

Como apoio da comunidade internacional, temos toda a capacidade de replicar essa experiência bem-sucedida do Brasil; no Sahel e ajudar a assegurar o fome zero a essa região.

Segue trecho de meu discurso de hoje, no Senegal: